MORADIA
Tupinikingz BBMC’S
Antes da casa, houve a cerca.
Antes do povo, houve a posse.
Antes do lar, houve a terra arrancada.
O Brasil não nasceu como nação.
Nasceu como travessia comercial.
Como cálculo.
Como extração.
Como alguém olhando para o horizonte e perguntando:
“quanto vale isso tudo?”
E desde então, morar nunca foi apenas morar.
Foi sobreviver sobre um chão cansado de expulsar gente.
A arqueologia da desigualdade brasileira não começa no apartamento.
Começa na poeira levantada pelos pés indígenas correndo da invasão.
Começa na terra marcada por sangue,
na mão escravizada construindo riqueza para nunca habitá-la,
no homem simples olhando um pedaço de chão sem jamais poder chamá-lo de seu.
O descobrimento sempre foi um negócio.
Talvez por isso o brasileiro trabalhe tanto
e pertença tão pouco.
Canudos ainda não acabou.
Canudos virou periferia.
Virou viela.
Virou barraco comprimido entre concreto e ausência.
Virou trabalhador acordando às quatro da manhã para atravessar uma cidade que nunca o abraça completamente.
Os soldados descartados daquela guerra voltaram sem terra, sem dignidade e sem futuro.
E então o Brasil fez o que mais sabe fazer:
empurrou os sobreviventes para longe da paisagem oficial.
A favela talvez seja o silêncio deixado depois do massacre.
E existe uma dor difícil de explicar nisso tudo…
Porque mesmo dentro da escassez existia céu.
Existia rua.
Existia campinho.
Existia o banco da calçada.
Existia vizinho chamando pelo nome.
Existia criança correndo até o corpo cansar.
Existia horizonte.
Hoje as janelas apenas encontram outras janelas.
O concreto subiu como quem queria esconder alguma coisa.
E talvez quisesse mesmo.
Impermeabilizaram a miséria.
Não resolveram a dor —
apenas impediram que ela respirasse.
Empilharam gente como quem organiza estoque.
Criaram edifícios onde o pobre finalmente conseguiu “entrar”…
desde que aceitasse desaparecer um pouco lá dentro.
Queríamos um lar.
Deram-nos moradia.
E existe diferença.
Lar é quando a vida repousa.
Moradia é quando o corpo apenas dorme para continuar funcionando amanhã.
O trabalhador moderno virou vigia do funcionamento do mundo.
Protege relógios que nunca desaceleram.
Protege patrimônios que nunca possuirá.
Protege cidades onde seu próprio rosto parece provisório.
Enquanto isso, os campinhos viram condomínios.
Os quintais desaparecem.
Os velhos comércios humanos viram delivery.
A rua deixa de ser encontro e vira trajeto.
A cidade inteira parece cansada de gente.
E talvez o mais cruel seja perceber que o sistema nem sempre elimina a violência.
Às vezes apenas troca quem a executa.
O menino pobre cresce olhando para cima,
jurando que um dia vai vencer.
Mas quando finalmente sobe alguns andares da vida,
já não reconhece mais o bairro,
já não reconhece mais o povo,
já não reconhece nem a própria ferida.
O sofrimento vira mérito individual.
A sobrevivência vira arrogância.
E o oprimido começa lentamente a sonhar em operar a própria opressão.
Isso não é inveja social.
É luto coletivo.
É a sensação de que fomos nos perdendo enquanto chamávamos isso de progresso.
Porque no fundo ninguém sonhava em ser rico.
As pessoas sonhavam em descansar.
Mas o descanso ficou caro demais.
Hoje o brasileiro financia por trinta anos um cubículo para continuar sem tempo, sem rua, sem horizonte e sem silêncio.
A casa própria virou o jeito mais caro de continuar sem pertencer.
E talvez seja isso que torna tudo tão pesado…
O céu ainda está lá.
Mas já não protege ninguém.
Ele apenas observa.
Observa as crianças desaparecendo das ruas.
Observa os prédios crescendo como gavetas humanas.
Observa a vegetação sufocada.
Observa o homem simples sendo comprimido entre prestação, trânsito e sobrevivência.
Observa um país inteiro desaprendendo lentamente o que era viver.
Porque “Moradia” nunca foi apenas sobre habitação.
É sobre o desaparecimento de um mundo inteiro.
É sobre perceber que roubaram não apenas a terra —
mas também o tempo, o horizonte, a convivência e a delicadeza de existir.
No fim,
o concreto não modernizou o pertencimento.
Apenas oficializou seu funeral silencioso.

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